terça-feira, 22 de setembro de 2026

Primavera, perimenopausa e menopausa: um convite para cuidar do corpo em transição

A chegada da primavera pode ser um convite para olhar para dentro e perceber o que o corpo feminino está pedindo durante a perimenopausa e a menopausa.

A primavera chega trazendo mudanças perceptíveis na natureza. A luz se amplia, as plantas brotam, as flores aparecem e os dias começam a ganhar outro ritmo. Gosto de pensar que cada mudança de estação também pode ser um convite para observar as nossas próprias estações internas. Hoje falamos muito mais sobre saúde hormonal feminina, perimenopausa e menopausa do que falávamos há algumas décadas. Dar nome a essas fases é importante. Afinal, durante muito tempo, muitas mulheres passaram por mudanças significativas no corpo sem compreender o que estava acontecendo. Mas, quando falamos de menopausa, ainda existe uma tendência de transformar o corpo em uma lista de sintomas que precisam ser controlados.

Calorões, alterações do sono, mudanças de humor, ansiedade, cansaço, alterações na composição corporal, redução da libido, mudanças na memória e na concentração podem aparecer nessa fase. E é natural desejar aliviar aquilo que causa sofrimento. Mas existe outra pergunta que considero igualmente importante:

O que o meu corpo está me pedindo nesta fase da vida?

Perimenopausa: quando o corpo começa a mudar

A perimenopausa é o período de transição que antecede a menopausa. É uma fase marcada por mudanças na atividade dos ovários e por oscilações hormonais que podem produzir diferentes manifestações físicas e emocionais.

Nem toda mulher vive essa transição da mesma maneira. Algumas percebem alterações importantes no ciclo menstrual, enquanto outras experimentam principalmente mudanças no sono, no humor, na temperatura corporal, na energia ou na composição corporal.

É justamente por isso que acredito que precisamos ir além de uma abordagem baseada apenas em sintomas.

Aos 51 anos, vivendo a menopausa, percebo cada vez mais que essa mudança não diz respeito apenas aos hormônios. Ela atravessa o sono, o metabolismo, as emoções, a relação com o tempo, a maneira como me movimento e, principalmente, a forma como escuto os meus próprios limites. Na perimenopausa, aquilo que funcionava durante muitos anos pode começar a não funcionar da mesma maneira.

E talvez uma das grandes aprendizagens dessa fase seja justamente esta: aprender a adaptar-se, em vez de exigir que o corpo continue funcionando segundo regras antigas.

O que o Ayurveda pode ensinar sobre a menopausa?

Na medicina ayurvédica, saúde não é compreendida apenas como ausência de doença. O cuidado envolve alimentação, rotina, sono, movimento, digestão, estado emocional, ambiente e a relação entre todos esses elementos.

Isso não significa que o Ayurveda possa explicar ou tratar sozinho tudo o que acontece na menopausa. Tampouco significa que mudanças de estilo de vida substituam acompanhamento médico ou tratamentos convencionais quando eles são necessários.Para mim, o caminho é ampliar o cuidado.

Podemos buscar informação científica, acompanhamento profissional e tratamentos quando indicados, ao mesmo tempo em que desenvolvemos uma relação mais consciente com o nosso corpo e com os nossos hábitos. Ayurveda e medicina contemporânea podem caminhar de forma complementar, respeitando os limites e os conhecimentos de cada campo.

Menopausa e estilo de vida: o cotidiano também importa

Quando pensamos em saúde hormonal feminina, é comum procurar uma solução isolada para cada sintoma. Um recurso para o calorão. Outro para dormir. Outro para a ansiedade. Outro para o peso. Mas nosso corpo não funciona em compartimentos.

Sono, alimentação, atividade física, estresse, saúde metabólica, relações, descanso e exposição à luz, por exemplo, fazem parte de uma mesma experiência corporal. Por isso, cuidar da saúde durante a perimenopausa e a menopausa também passa por observar a vida cotidiana.

1. Nutrir o corpo
A alimentação pode ser uma importante aliada nessa fase.Uma alimentação variada e nutritiva, com vegetais, frutas, leguminosas, proteínas adequadas, fibras e fontes de gorduras insaturadas, contribui para a saúde geral e para o cuidado cardiovascular e metabólico. Mais do que buscar uma dieta específica para “controlar a menopausa”, gosto de pensar em nutrir o corpo que tenho hoje. O corpo muda. E talvez nossa alimentação também precise mudar com ele.

2. Fortalecer sem se esgotar
O movimento ganha uma importância especial nessa fase. Práticas como caminhada, musculação, yoga e outros exercícios que desenvolvam força, equilíbrio, mobilidade e condicionamento podem fazer parte de uma rotina de cuidado.

No Yoga Regenerativo, não penso o movimento como mais uma tarefa que a mulher precisa cumprir. Movimentar-se também pode ser uma forma de escutar.

Quanto esforço é suficiente? Onde está o meu limite? O que me fortalece? O que me esgota?

Existe uma diferença importante entre desafiar o corpo e violentar seus limites.

3. Cuidar do sono
O sono pode mudar bastante durante a transição menopausal. Alterações hormonais, ondas de calor, estresse e outros fatores podem interferir na qualidade do descanso. Por isso, criar condições para desacelerar no final do dia pode ser uma prática de saúde. Diminuir estímulos à noite, estabelecer horários mais regulares, cuidar do ambiente de sono e desenvolver práticas de relaxamento são estratégias simples que podem ajudar. Mas, novamente, não precisamos transformar o sono em mais uma meta de desempenho. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente reconhecer: meu corpo está cansado e precisa de descanso.

4. Observar o estresse
A relação entre estresse, sono, sistema nervoso e saúde metabólica é complexa, mas sabemos que o estresse crônico pode afetar diferentes dimensões da saúde. Na menopausa, talvez seja ainda mais importante perceber quanto tempo passamos em estado de exigência.

Eu me pergunto: Preciso realmente fazer tudo isso? Onde posso diminuir o ritmo? O que posso deixar para depois? Onde estou ultrapassando meus próprios limites para atender expectativas externas?

Essas perguntas também fazem parte do cuidado.

5. Criar espaço para o prazer
Existe outro aspecto que muitas vezes desaparece das conversas sobre menopausa: prazer. Prazer de caminhar, cozinhar, estar na natureza, dançar, tocar, criar, encontrar pessoas queridas, descansar, contemplar, respirar. O cuidado não precisa ser apenas aquilo que fazemos porque “precisamos”. A vida também pode ser fonte de nutrição.

Primavera: uma oportunidade de recomeçar sem começar do zero

A natureza não floresce o ano inteiro. Ela alterna expansão e recolhimento, crescimento e pausa, abundância e descanso. Cada estação tem sua função dentro do ciclo da vida. Nós também somos natureza. Por isso, não vejo a menopausa como o fim de uma primavera. Vejo como uma passagem para outra estação da vida — com suas próprias potências, necessidades e formas de florescer.

O desafio pode ser parar de tentar permanecer eternamente na mesma estação. A chegada da primavera pode ser uma boa oportunidade para olhar para os nossos hábitos e perguntar: O que quero nutrir nesta nova estação da minha vida?

Mais movimento, mais descanso, mais presença,silêncio, prazer, aprender a dizer não, a ser mais verdadeira, dar limite, acolher as sombras?

Talvez seja simplesmente escutar o corpo antes de decidir o que fazer. Menopausa não é um corpo para consertar. Essa é uma frase que acompanha meu trabalho, pois acredito que seja uma faze de maturação, de aprofundar sua escuta para o corpo.

Isso não significa romantizar sintomas, ignorar sofrimento ou deixar de buscar tratamento. Significa reconhecer que existe uma mulher inteira vivendo essa transformação — e que seus sintomas, seus desejos, seus limites, sua história e seu contexto também fazem parte do cuidado.

Para mim, o caminho do Yoga Regenerativo passa por isso: sentir, compreender, adaptar e agir com gentileza. Não para voltar a ser quem éramos. Mas para aprender a habitar o corpo que somos agora.

Que esta primavera seja um convite para florescer sem pressa, respeitando o próprio ritmo e criando espaço para uma relação mais íntima, consciente e amorosa com o corpo.

E você? O que o seu corpo está pedindo da vida nesta nova estação?

Namaste.

Mariana Soares
Yoga Regenerativo na Casa Gaia, Permacura

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